terça-feira, 2 de junho de 2009

O bobo

Como definir um bobo? Pois bem. Bobo é aquele indivíduo meio avoado, pouco inteligente, que adora falar muito, e do muito que fala pouco ou nada se aproveita. Encontramos bobos em todos os lugares. Eles se proliferam no trabalho, na vizinhança, em nossas famílias e também em lugares esporádicos como filas de banco, supermercados e transportes coletivos.

O bobo é aquele sujeito que emite comentários aleatórios e sem sentido sobre assuntos dos quais possui pouco ou nenhum conhecimento. Baseia suas opiniões em fontes como conversas de bar e meios de comunicação em massa como a televisão. Basta algum imbecil dizer qualquer absurdo na telinha, e o bobo terá aquilo como a mais absoluta e clara verdade.

Com gente desta categoria não se argumenta, pois sua mente limitada não lhe permite processar muita informação. Acredito que qualquer prática que exija algum esforço cerebral acaba lhe causando dor física. Pensar deve doer pacas a este pobre infeliz! E é justamente por esta razão que o bobo adora seguir um padrão de comportamento social preestabelecido. Tudo que o bobo veste, todas as músicas que o bobo escuta, tudo que o bobo assiste e tudo aquilo que o bobo pensa já foi de alguma forma anteriormente determinado e adequado à sua condição.

Os bobos possuem duas características marcantes. Primeiro, eles se acham engraçados. É muito comum gente boba tentar fazer piadinhas nos momentos mais inoportunos. Quem possui o dom do humor consegue ser engraçado até mesmo no velório da mãe, mas não é o caso dos bobos. A segunda característica marcante desta nobre casta é a sua necessidade compulsiva por atenção e aprovação pública. Bobos adoram aparecer.

Há dois tipos de bobos. O primeiro é o “bobo verdadeiro” ou “bobo comum”. Este indivíduo é geralmente alguém sem grandes pretensões e aspirações. Passa a vida fazendo suas bobagens rotineiras e costuma acreditar que seus infortúnios são causados por alguma força maior e incompreensível. Como não é capaz de compreender o mundo ao seu redor, tudo que lhe resta é abaixar a cabeça e aceitar o que lhe é empurrado. Compõem a base da população mundial.

O segundo tipo de bobo é o “bobo intelectualóide”. Ele possui uma vaga percepção de que aquilo destinado às grandes massas não lhe serve, mas no fundo é tão bobo quanto o bobo comum. A única diferença entre os dois está no grau de sofisticação de seus padrões. O bobo intelectualóide tem plena consciência, por exemplo, de que a música do bobo comum é de baixa qualidade. Mas como todo bom bobo, ele acaba seguindo cegamente a outros modelos igualmente predeterminados. Talvez isso explique a razão do sucesso de algumas “figurinhas carimbadas” da MPB, sem citar nomes, é claro...

Talvez a face mais cruel da vida de um bobo esteja no fato dele não fazer a menor idéia de sua triste condição. Aliás, se de algum modo ele percebesse, já não seria mais bobo, pois percepção e raciocínio são intimamente ligados, e como já foi dito, qualquer atividade cerebral mais complexa não faz parte da natureza deste indivíduo. Ninguém, absolutamente ninguém, está livre de pertencer a esta categoria. Todos nós podemos ser bobos. Apenas não percebemos.

Mas anime-se, pois não existe infelicidade no universo dos bobos. Por mais incrível que possa parecer, todo bobo é feliz. Como o bobo não questiona o mundo ao seu redor e não possui senso crítico, nada lhe aflige ou lhe preocupa. Ao invés de perder noites de sono com problemas sem solução, o pacato bobo está muito mais interessado em seu joguinho de futebol ou no capítulo final da novela.

Seria a ignorância a chave para a felicidade?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Garoto Enxaqueca, Garoto Enxaqueca

Alguém se recorda do Garoto Enxaqueca? Para quem não conhece ou não lembra, tentarei explicar. Criado pelo cartunista Greg Fiering, Garoto Enxaqueca (originalmente Migraine Boy) foi exibido no Brasil na década de noventa pela MTV. Eram vinhetas em forma de desenho animado sobre um menino ranzinza e chato pacas que despejava mal-humor ao mundo em sua volta. A quem interessar, muitos episódios estão disponíveis no youtube.

Nos episódios, contrapondo-se ao sisudo protagonista, havia sempre menino simpático, de aparência singela, voz adocicada e extremamente “de bem com a vida”. Ele sempre vinha todo serelepe cumprimentar o Garoto Enxaqueca, e este sempre acabava recebendo-o com absoluto desprezo e indiferença. O interessante é que, mesmo sendo repelido com extrema grosseria, este garoto nunca pareceu se importar com o comportamento agressivo do "amigo", permanecendo sempre sorrindente e alegre.

Há um episódio em que está chovendo muito, e o simpático menino convida o Garoto Enxaqueca para se abrigar debaixo de seu guarda-chuva. O rabugento Garoto Enxaqueca responde que prefere pegar uma pneumonia e morrer. Em outro episódio, o tal garotinho do bem chega todo feliz mostrando sua fantasia de índio, e o ranheta Garoto Enxaqueca diz ao gracioso garoto que ele é “só um mongo com uma pena na cabeça”. Há também um episódio em que uma menina pede ao irritado garoto para ele pensar positivo, e quando ele finalmente o faz, acaba estourando a cabeça da pobre mocinha.

E então? Com qual personagem você, caro leitor, se identificou? Você é sempre mal-humorado, carrancudo e vive distribuindo aquilo que há de pior em seu coração e mente como o Garoto Enxaqueca, ou está sempre sorridente, alegre e feliz da vida não importa o que aconteça como garotinho que o antagoniza?

As vinhetas do Garoto Enxaqueca são bastante fiéis às nossas vidas como um todo. São muitas as situações em que, mesmo sem querer, acabamos sendo sórdidos e miseráveis com os que nos cercam, inclusive com aqueles que nos querem bem. Por outro lado, quem nunca foi tratado com grosseria e desprezo sem merecer? Creio que constantemente transitamos por ambos os lados da história.

É muito fácil, por exemplo, entrarmos em lugares como repartições públicas, bancos e outros estabelecimentos abarrotados de gente, chegarmos de forma tranqüila, humilde e sorridente ao atendente, e este, com aquela “cara de merda” nos receber com um elevado grau de antipatia, indiferença e grosseria. Sim, somos capazes de lembrar de cada uma das vezes em que fomos maltratados de forma injusta ao longo de nossas vidas.

Por outro lado, embora seja fácil lembrarmos de todas as vezes que fomos tratados de forma grosseira ao longo de nossa existência, será que é tão fácil assim recordarmos de quando estivemos no lado oposto? Será que recordamos de quantas vezes tratamos o mundo e seus habitantes de maneira rude? Aliás, será que conseguimos perceber quando estamos sendo canalhas com os que nos cercam?

Há alguns anos atrás, uma pessoa que conheci me disse que a humanidade caminha em fila indiana, e que nós, seres humanos, possuímos todas as nossas virtudes penduradas em nossos umbigos e todos os nossos defeitos colados em nossas costas. Então, o que conseguimos ver? Nossos umbigos recheados de nossas mais nobres qualidades, e as costas de quem está a nossa frente. No entanto, nunca viramos o pescoço para trás, e consequentemente não vemos nem as qualidades alheias e nem nossos próprios defeitos. E acabamos nos esquecemos também que há sempre alguém olhando nossas costas...

Portanto, muito cuidado com aquilo que dizemos ou fazemos aos demais. O que mais eu poderia dizer? Bem, mantenham uma atitude positiva e sorriam sempre, mesmo quando nos encontramos com o tal Garoto Enxaqueca.