Uma vez por ano, meu pai e outros velhos desocupados entravam em um ônibus e passavam um fim de semana inteiro enchendo a cara em um clube no litoral norte de São Paulo. Este passeio chamava-se "Arrastão".
Certa vez, querendo se gabar do filho e fazer um moral com os amigos, me pediu para fazer um desenho para estampar as camisetas do passeio daquele ano. Isso ocorreu já há algum tempo, mas até hoje não fiz desenho algum. Esta não foi a primeira vez que alguém próximo a mim pediu alguma coisa e, por pura preguiça, jamais fiz. Já me pediram desenhos, logotipos, quadros e outros favores que não tomariam mais que alguns minutos ou horas de meu tempo.
Anos atrás, trabalhei como designer em uma montadora de veículos. Havia ali um diretor fanfarrão, que gostava de inventar apelidos, fazer piadinhas em reuniões, tomar umas cervejinhas, falar palavrões... Enfim, era alguém que gostava de passar a imagem de ser um sujeito comum e acessível.
Um belo dia, este diretor entrou em minha sala bem cedo e me pediu um favor. Ele participava de um bloco carnavalesco, e queria que eu fizesse algumas ilustrações infames para estampar as camisetas deste bloco. Antes da hora do almoço, os desenhos estavam feitos. Ele agradeceu, e o assunto morreu ali.
Três ou quatro semanas atrás, meu pai lembrou-se do desenho que me pediu (e que jamais fiz) para o passeio dele. Dei uma risadinha amarelada e mudei de assunto. Desnecessário dizer que me senti um verme naquele momento. Fiquei absolutamente constrangido com a situação.
Vejamos... Não prestei um simples favor ao meu velho pai, o cara que me criou, me sustentou, que deixou muitas vezes de fazer as coisas que ele quis para satisfazer meus desejos e que se dedicou de corpo para que eu me tornasse alguém na vida (bem, o que vale é a intenção...), mas perdi alguns minutos de meu expediente para agraciar o diretor.
O tal diretor não "ordenou" que eu fizesse os desenhos. Simplesmente me pediu. Não me pressionou, não me ameaçou e não impôs sua superioridade hierárquica. Se eu não tivesse feito os desenhos, talvez ele nem tivesse percebido.
Creio que muitos de vocês que estão lendo este texto, indignados pelo ser asqueroso que sou por desprezar meu querido e velho pai, tenham passado alguma vez por situação parecida. Muitas vezes não damos o devido valor aos nossos entes queridos. No entanto, seja por medo ou simplesmente para fazer uma média, somos capazes de empregar um esforço incrível para as coisas mais banais.
Estava me esquecendo. Eis aqui as obras de arte para o tal bloco carvavalesco...

O.o
ResponderExcluirSinceramente?
Não sei o que comentar!
Ah... faz o desenho para ele agora =P prove que você não é totalmente monstro (ou que está arrependido...)
Beijinho