terça-feira, 2 de junho de 2009

O bobo

Como definir um bobo? Pois bem. Bobo é aquele indivíduo meio avoado, pouco inteligente, que adora falar muito, e do muito que fala pouco ou nada se aproveita. Encontramos bobos em todos os lugares. Eles se proliferam no trabalho, na vizinhança, em nossas famílias e também em lugares esporádicos como filas de banco, supermercados e transportes coletivos.

O bobo é aquele sujeito que emite comentários aleatórios e sem sentido sobre assuntos dos quais possui pouco ou nenhum conhecimento. Baseia suas opiniões em fontes como conversas de bar e meios de comunicação em massa como a televisão. Basta algum imbecil dizer qualquer absurdo na telinha, e o bobo terá aquilo como a mais absoluta e clara verdade.

Com gente desta categoria não se argumenta, pois sua mente limitada não lhe permite processar muita informação. Acredito que qualquer prática que exija algum esforço cerebral acaba lhe causando dor física. Pensar deve doer pacas a este pobre infeliz! E é justamente por esta razão que o bobo adora seguir um padrão de comportamento social preestabelecido. Tudo que o bobo veste, todas as músicas que o bobo escuta, tudo que o bobo assiste e tudo aquilo que o bobo pensa já foi de alguma forma anteriormente determinado e adequado à sua condição.

Os bobos possuem duas características marcantes. Primeiro, eles se acham engraçados. É muito comum gente boba tentar fazer piadinhas nos momentos mais inoportunos. Quem possui o dom do humor consegue ser engraçado até mesmo no velório da mãe, mas não é o caso dos bobos. A segunda característica marcante desta nobre casta é a sua necessidade compulsiva por atenção e aprovação pública. Bobos adoram aparecer.

Há dois tipos de bobos. O primeiro é o “bobo verdadeiro” ou “bobo comum”. Este indivíduo é geralmente alguém sem grandes pretensões e aspirações. Passa a vida fazendo suas bobagens rotineiras e costuma acreditar que seus infortúnios são causados por alguma força maior e incompreensível. Como não é capaz de compreender o mundo ao seu redor, tudo que lhe resta é abaixar a cabeça e aceitar o que lhe é empurrado. Compõem a base da população mundial.

O segundo tipo de bobo é o “bobo intelectualóide”. Ele possui uma vaga percepção de que aquilo destinado às grandes massas não lhe serve, mas no fundo é tão bobo quanto o bobo comum. A única diferença entre os dois está no grau de sofisticação de seus padrões. O bobo intelectualóide tem plena consciência, por exemplo, de que a música do bobo comum é de baixa qualidade. Mas como todo bom bobo, ele acaba seguindo cegamente a outros modelos igualmente predeterminados. Talvez isso explique a razão do sucesso de algumas “figurinhas carimbadas” da MPB, sem citar nomes, é claro...

Talvez a face mais cruel da vida de um bobo esteja no fato dele não fazer a menor idéia de sua triste condição. Aliás, se de algum modo ele percebesse, já não seria mais bobo, pois percepção e raciocínio são intimamente ligados, e como já foi dito, qualquer atividade cerebral mais complexa não faz parte da natureza deste indivíduo. Ninguém, absolutamente ninguém, está livre de pertencer a esta categoria. Todos nós podemos ser bobos. Apenas não percebemos.

Mas anime-se, pois não existe infelicidade no universo dos bobos. Por mais incrível que possa parecer, todo bobo é feliz. Como o bobo não questiona o mundo ao seu redor e não possui senso crítico, nada lhe aflige ou lhe preocupa. Ao invés de perder noites de sono com problemas sem solução, o pacato bobo está muito mais interessado em seu joguinho de futebol ou no capítulo final da novela.

Seria a ignorância a chave para a felicidade?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Garoto Enxaqueca, Garoto Enxaqueca

Alguém se recorda do Garoto Enxaqueca? Para quem não conhece ou não lembra, tentarei explicar. Criado pelo cartunista Greg Fiering, Garoto Enxaqueca (originalmente Migraine Boy) foi exibido no Brasil na década de noventa pela MTV. Eram vinhetas em forma de desenho animado sobre um menino ranzinza e chato pacas que despejava mal-humor ao mundo em sua volta. A quem interessar, muitos episódios estão disponíveis no youtube.

Nos episódios, contrapondo-se ao sisudo protagonista, havia sempre menino simpático, de aparência singela, voz adocicada e extremamente “de bem com a vida”. Ele sempre vinha todo serelepe cumprimentar o Garoto Enxaqueca, e este sempre acabava recebendo-o com absoluto desprezo e indiferença. O interessante é que, mesmo sendo repelido com extrema grosseria, este garoto nunca pareceu se importar com o comportamento agressivo do "amigo", permanecendo sempre sorrindente e alegre.

Há um episódio em que está chovendo muito, e o simpático menino convida o Garoto Enxaqueca para se abrigar debaixo de seu guarda-chuva. O rabugento Garoto Enxaqueca responde que prefere pegar uma pneumonia e morrer. Em outro episódio, o tal garotinho do bem chega todo feliz mostrando sua fantasia de índio, e o ranheta Garoto Enxaqueca diz ao gracioso garoto que ele é “só um mongo com uma pena na cabeça”. Há também um episódio em que uma menina pede ao irritado garoto para ele pensar positivo, e quando ele finalmente o faz, acaba estourando a cabeça da pobre mocinha.

E então? Com qual personagem você, caro leitor, se identificou? Você é sempre mal-humorado, carrancudo e vive distribuindo aquilo que há de pior em seu coração e mente como o Garoto Enxaqueca, ou está sempre sorridente, alegre e feliz da vida não importa o que aconteça como garotinho que o antagoniza?

As vinhetas do Garoto Enxaqueca são bastante fiéis às nossas vidas como um todo. São muitas as situações em que, mesmo sem querer, acabamos sendo sórdidos e miseráveis com os que nos cercam, inclusive com aqueles que nos querem bem. Por outro lado, quem nunca foi tratado com grosseria e desprezo sem merecer? Creio que constantemente transitamos por ambos os lados da história.

É muito fácil, por exemplo, entrarmos em lugares como repartições públicas, bancos e outros estabelecimentos abarrotados de gente, chegarmos de forma tranqüila, humilde e sorridente ao atendente, e este, com aquela “cara de merda” nos receber com um elevado grau de antipatia, indiferença e grosseria. Sim, somos capazes de lembrar de cada uma das vezes em que fomos maltratados de forma injusta ao longo de nossas vidas.

Por outro lado, embora seja fácil lembrarmos de todas as vezes que fomos tratados de forma grosseira ao longo de nossa existência, será que é tão fácil assim recordarmos de quando estivemos no lado oposto? Será que recordamos de quantas vezes tratamos o mundo e seus habitantes de maneira rude? Aliás, será que conseguimos perceber quando estamos sendo canalhas com os que nos cercam?

Há alguns anos atrás, uma pessoa que conheci me disse que a humanidade caminha em fila indiana, e que nós, seres humanos, possuímos todas as nossas virtudes penduradas em nossos umbigos e todos os nossos defeitos colados em nossas costas. Então, o que conseguimos ver? Nossos umbigos recheados de nossas mais nobres qualidades, e as costas de quem está a nossa frente. No entanto, nunca viramos o pescoço para trás, e consequentemente não vemos nem as qualidades alheias e nem nossos próprios defeitos. E acabamos nos esquecemos também que há sempre alguém olhando nossas costas...

Portanto, muito cuidado com aquilo que dizemos ou fazemos aos demais. O que mais eu poderia dizer? Bem, mantenham uma atitude positiva e sorriam sempre, mesmo quando nos encontramos com o tal Garoto Enxaqueca.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Os bichanos e eu

Imagine um cara grande, um metro e noventa de altura, realmente um armário. Este cara calça um coturno tamanho quarenta e seis, possui um ford maverick com um potente motor V8, joga rugby (rugby, para quem não sabe, é um jogo de impacto, bastante viril, semelhante ao futebol americano aos olhos de um leigo), toma cerveja, escuta heavy metal, fala palavrão, coça suas partes íntimas em público, acha que novela é pura frescura e tem como animal de estimação um feroz cão da raça pitbull.

Pois bem, este sujeito descrito acima sou eu, exceto por dois detalhes. Primeiro, não coço minhas partes íntimas em público (quase nunca, eu juro!). O segundo detalhe é o animal de estimação. Eu não possuo um pitbull. Não possuo um pitbull, nem um rottweiler, e nem qualquer outro cão de raça feroz. Aliás, não possuo sequer um cão.   

Apesar de ser grande feito um troglodita, calçar quarenta e seis, dirigir um monstro devorador de gasolina, jogar rugby, beber cerveja, ouvir heavy metal, falar palavrão e odiar novelas, meu gosto por animais é bastante peculiar. Na verdade, eu gosto de gatos. Aliás,  não gosto de gatos, eu amo gatos! Desde que me conheço por gente, possuo verdadeira paixão por felinos. São animais fascinantes, extremamente inteligentes, carinhosos, limpos, divertidos e incrivelmente belos. 

Anos atrás, um amigo meu veio desabafar comigo. A filha dele, na época com oito anos de idade, adorava jogar futebol, era pouco ou nada vaidosa, detestava bonecas e adorava brinquedos para meninos. Este meu amigo se dizia preocupado, pois achava que a filha podia estar apresentando tendências homossexuais. Isso lhe preocupava, embora afirmasse ser contra qualquer tipo de preconceito. 

Para acalmá-lo, contei a ele que eu adorava gatos, e que isso nunca fez de mim menos homem. Ele arregalou os olhos e perguntou se eu estava falando sério. Disse a ele que sim, que realmente gostava de gatos. Após alguns segundos pensativo, começou a rir. Acabou admitindo que estava pensando besteira sobre os hábitos da filha, e que ela era muito jovem para assumir qualquer posição quanto à sua sexualidade.

Tive meu primeiro gato aos seis anos de idade. Infelizmente ele teve uma doença que acabou tirando-lhe a vida precocemente. Pouco tempo depois minha família mudou-se para um apartamento, e meu pai, que odiava gatos, jamais permitiu que tivéssemos um. Aos dezoito anos acabei ganhando um belíssimo filhote de uma namoradinha que tive na época. Meu pai foi relutante, mas minha mãe, que também adora gatos, acabou ameaçando-o, digo, convencendo-o a ficarmos com o bicho.

Era um gato comum, mas com dois hábitos bastante excêntricos. Ele era louco por azeitona de pizza. Exatamente, azeitona de pizza. Se lhe dessem azeitona diretamente da embalagem ou de qualquer outra fonte, ele simplesmente desprezava a guloseima. Para ele, azeitona tinha que vir da pizza. O legal é que da pizza somente a azeitona lhe interessava, e mais nada. O segundo hábito exótico era o vício por mamão. Ele adorava mamão. Muito estranho para um animal classificado nos livros de zoologia como carnívoro...

Em 1999 nos mudamos novamente, e após muitos anos vivendo em apartamento, voltamos a morar em uma casa. Meu gato veio a falecer algum tempo depois devido a problemas renais. Desde então, outros bichanos conviveram conosco. Meu pai, no entanto, sempre manteve uma certa distância dos animais, afinal, ele detestava gatos.

Eis que um belo dia, muito próximo do natal de 2003, um lindo filhote de gato siamês apareceu em nosso quintal, faminto e abandonado. Algo místico ocorreu entre meu pai e o bichano. Foi amor à primeira vista. Até hoje eles não se desgrudam. Meu pai, um homem sério, sisudo e carrancudo, torna-se novamente uma criança ao brincar com animalzinho.

Atualmente, além deste gato siamês, tenho também uma gata nascida no quintal de casa. Era a menor da ninhada, a mais fraquinha. Agora é gordinha e saudável. Hoje moro sozinho em Santo André, e raramente vejo meus gatos, que no momento vivem tranquilos em um apartamento no litoral paulista com meus pais, que os tratam como duas crianças mimadas.  

O motivo de meu pai não gostar de gatos remete à sua infância. Na época ele criava preás (porquinhos-da-índia), e na visão de um gato, estes pequenos roedores são ótimos petiscos. De tanto ver seus frágeis bichinhos sendo devorados pelos hábeis felinos, meu pai acabou desenvolvendo um ódio mortal por gatos. Pois é, as coisas mudam...

Ah! A filha do meu amigo acabou tornando-se uma linda moça, e embora ainda goste de futebol, atualmente está muito mais interessada em garotos.


O lar e o bar

É como sempre digo, "não há no mundo lugar melhor que o bar". Não, não cometi nenhum erro de digitação. Não quis dizer lar. Quis dizer bar mesmo. E antes de continuar com este texto, já vou avisando à turminha politicamente correta que não faço apologia ao uso de álcool, não estou incentivando ninguém a beber até cair, e não pretendo que ninguém deixe o conforto de seu lar e passe a morar em um bar. Sinceramente, algumas das cenas mais tristes e deprimentes que vi em minha vida estão relacionadas ao consumo excessivo de álcool.  

Mas já repararam quão aconchegante pode ser um bar? Repararam que uma simples cerveja pode ficar muito mais gostosa quando a tomamos em um copo mal lavado, sentados à mesa de um boteco sujo e apertado? Notaram que muitos de nossos melhores amigos, algumas das conversas mais interessantes e as piadas mais engraçadas geralmente surgem em um bar? Logicamente muita gente sequer pisou em um bar ou jamais tomou uma única gota de cachaça, mas para a imensa maioria de nós, pobres pecadores, bar significa diversão e descontração. 

A idéia para o meu melhor trabalho de faculdade surgiu através do comentário de um grande amigo meu na mesa de um bar em Bauru, interior de São Paulo, cidade onde estudei. A iniciativa de montar meu próprio negócio apareceu durante uma bebedeira com um amigo (e hoje também sócio). Embora condenado por muitos críticos por ser um um filme infantil e apresentar uma cena de bebedeira explícita, foi somente após um belo pileque que o elefante Dumbo descobriu que podia voar. Analisando friamente, quase podemos afirmar que o álcool está para a sociedade assim como o espinafre está para o marinheiro Popeye.  

Para os apreciadores de uma boa bebida, o bar é muito mais que um simples estabelecimento comercial. É também um centro de convivência. Ali ele se sente realmente à vontade, livre para expor todas as suas idéias, cercados de seus mais leais amigos. Sim, isso mesmo, leais amigos. Quando um freqüentador assíduo de bar morre, muito de seus parentes não comparecem ao seu funeral, mas todos os seus companheiros de copo marcam presença para se despedir do amigo que partiu.  

Assim como o bar é mais que um ponto comercial, o dono do boteco desempenha um importante papel na vida do bebum. Não se trata simplesmente de um comerciante local. Muitas vezes ele é um amigo, um confidente, um psicólogo, um guru, e até mesmo uma figura paterna. Um freqüentador de bar pode não obedecer a lei ou as autoridades, mas ele sempre respeita o dono do boteco.  

Quando um chapado perde o emprego, é com o dono do boteco que ele se consola. Quando bêbado fica sem dinheiro, é o dono do bar que gentilmente lhe abre uma conta para que ele não passe necessidade. Alguém por acaso já viu dono de supermercado, açougue ou farmácia vender fiado? Acredito que não...

A confiança no dono do bar é tanta, que é justamente a ele que seu fiel cliente conta seus segredos mais íntimos. Aliás, quando alguém é traído pela esposa, é para o bar que o pobre infeliz vai afogar suas mágoas, e é com o dono do botequim que ele chora até secarem suas lágrimas. Nem mesmo um padre seria tão confiável em uma hora dessas... 

Há alguns anos atrás morei próximo a um boteco. O estabelecimento abria às oito da manhã. Por volta de sete e meia, quando eu saia para trabalhar, já havia gente na porta do bar, esperando ansiosamente o primeiro trago do dia. Sim, eu sei, isso não é nem um pouco engraçado. Na verdade eu me sentia mal ao olhar aqueles pobres seres humanos em situação tão degradante e desesperadora. 

É incrivelmente triste quando percebemos que o álcool pode levar uma pessoa a um grau de dependência tão elevado, a ponto desta pessoa passar mais de meia hora sentada em uma calçada, faça frio ou faça calor, simplesmente para se embriagar. Quantas mentes brilhantes devem ter sido corroídas pelo álcool? 

Bem, tudo que posso dizer é que devemos aproveitar as coisas boas que a vida nos oferece. Entre, puxe uma cadeira, peça uma cerveja, e manda vir uma porção de provolone no capricho!


quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sopa de mandioquinha

Segundo a Wikipédia, mandioquinha ou batata-baroa (Arracacia xanthorrhiza) é um tubérculo comestível muito usado na culinária brasileira. Em inglês, é chamado de arracacha, white carrot, Peruvian carrot ou Peruvian parsnip. Em francês pode ser chamada de arracacha, panéme ou pomme-de-terre céleri. Em espanhol é conhecida como apio criollo, racacha, vicarra ou zanahoria blanca. Em quechua pode se chamar rakacha, laquchu ou huiasampilla, e em ayamara é conhecida como lakachu ou lecachu. É rica em carboidratos, cálcio e fósforo.

No entanto, a maior particularidade da mandioquinha, pelo menos em minha humilde opinião, é o fato dela possuir um gosto absolutamente horrível. Tudo bem, gosto não se discute (apenas se lamenta). Muita gente adora mandioquinha, mas eu detesto, odeio, abomino! Se há comida no inferno, creio que mandioquinha faça parte do cardápio.

Não me considero chato com comida, mas há algumas coisas que não como nem por decreto. Basicamente, além da mandioquinha, não como miúdos (absolutamente nojento), arroz sem feijão, verduras amargas, legumes bizarros, frutinhas asquerosas (especialmente jaca e caqui) e cravo-da-índia. Detesto cravo! Se quiser fazer com que eu não coma canjica ou beijinho, basta colocar cravo... Urgh! Ah, eu devo ser também o único brasileiro a odiar nosso belo prato nacional: A indigesta feijoada.

Em 1999 arranjei meu primeiro estágio. Era em uma empresa localizada em Avaré, no interior de São Paulo. Avaré é a cidade onde morava uma garota que namorei durante quase sete anos. Basicamente, eu passava uma semana por mês nesta empresa. Como minha então namorada morava com sua família no mesmo município que empresa onde eu estagiava, acabava passando esta semana hospedado na casa dela.

Durante o dia, dedicava-me às minhas atividades na empresa. Saia no final da tarde, passava na casa de minha ex e a levava até o ponto de ônibus, pois ela estava no último ano de faculdade (assim como eu, ela também estudou em Bauru). Após deixá-la no ponto, eu retornava à casa dela, tomava um banho, jantava, assistia televisão, e à noite, ia até o ponto buscar a garota.

Certa vez, estava eu, quietinho e sossegado, assistindo televisão, quando minha ex-sogra veio toda simpática carregando uma cumbuquinha. Disse que a janta iria demorar para sair, e que havia feito uma sopa de mandioquinha para forrar o estômago. Olhei aquilo, disse que parecia estar muito gostosa (mentira, estava me dando nojo), mas que eu não estava com fome naquele momento (outra mentira, eu estava faminto!).

Ela começou a insistir para eu experimentar, quase com cara de choro. Fiquei calado no momento. Não tive coragem de dizer à doce mulher que eu simplesmente abominava aquela gororoba. O que eu poderia fazer naquele momento? Eu deveria recusar aquela gosma e passar a imagem de enjoado e fresco, ou deveria ser macho pacas e encarar a sopinha do capeta? Bem, acabei escolhendo a segunda opção, afinal, a gentil senhora havia feito aquela bela porcaria com muito carinho e dedicação.

Peguei a cumbuquinha e olhei para aquele caldo viscoso e amarelado. Sem brincadeira, aquilo tinha um aspecto repugnante, semelhante a um pote cheio de catarro quente. Sim, isso mesmo, Catarro quente! Foi exatamente isso realmente que passou por minha mente naquele momento, o que acabou dificultando ainda mais o meu castigo. A simpática velhinha me olhava toda sorridente, esperando que eu desse a primeira colherada.

Então, com os olhos fechados, fiz uma breve oração, e lá se foi a primeira colherada garganta adentro. Meu Deus! Que horror! Foi uma das piores experiências gastronômicas da minha vida. Era ainda pior que os bifes de fígado que minha mãe me forçava a comer, pois se eu não comesse, meu irmão mais novo também não comia. Eu, como irmão mais velho, tinha que dar o exemplo...

Prossegui com meu martírio. A cada colherada que eu dava naquela merda, mais me embrulhava o estômago. E o pior é que a minha doce ex-sogrinha ficava ali ao meu lado, toda orgulhosa, olhando o pobre infeliz aqui sofrendo em silêncio. Como ela não saia de perto, além de ter que engolir aquilo, eu tinha que fazer cara de que estava bom! Dez minutos depois, e com muito sacrifício, terminei meu flagelo. Me senti um herói, pois havia passado por uma enorme provação! E mesmo com o estômago revirado, mas cheio de confiança, acabei dizendo que estava uma delícia!

"Que ótimo que tenha gostado! Fiz com todo carinho. Quer mais?" - Disse a bondosa senhora. Naquele momento, tive vontade de chorar. O desespero era tanto, que por muito pouco não acabei cometendo um homicídio. No julgamento eu poderia alegar legítima defesa, visto que a vítima tinha a pretensão de me intoxicar até a morte com aquele veneno. Mas assassinatos são desagradáveis, chatos e dispendiosos.  Preferi apenas dizer "não, obrigado".  

O relacionamento naufragou há anos. Faz muito tempo que não tenho sequer notícias da minha ex ou de sua mãe. Mas nunca mais, eu disse nunca mais, me esquecerei daquela maldita sopa de mandioquinha...


terça-feira, 26 de maio de 2009

Fim do mundo

Pois é, o fim está próximo. Quantas vezes já ouvimos previsões proféticas sobre catástrofes cataclísmicas, guerras nucleares devastadoras, armagedom e outras baboseiras relacionadas ao fim do mundo? Estou até pensando em parar de assistir televisão, pois tudo acaba lembrando-me de alguma coisa que li, vi ou ouvi sobre o fim dos tempos.

O legal é que alguns canais por assinatura têm explorado insistentemente este tema. Já vi inúmeros programas sobre profecias maias, códigos ocultos na bíblia, Nostradamus, asteróides sarados em rota de colisão com nosso pobre e indefeso planeta, epidemias mortais, aquecimento global, dentre outras dezenas de bobagens.

O cinema não fica atrás. Quantos filmes retratando o trágico futuro da humanidade são lançados por ano? Alguém se habilita a contar? Eis alguns: Mad Max, O exterminador do futuro, Armagedom, Matrix, Eu sou a lenda, O dia depois de amanhã, e mais uma infinidades de filmes que exploram temas apocalípticos. Aliás, alguém se recorda de um filme chamado "The day after"? Me caguei quando o assisti pela primeira vez. Tive pesadelos terríveis com guerras nucleares durante a minha infância por causa desse filme tosco.

Recordo-me de um amigo meu, evangélico praticante. Para cada notícia ruim que surgia, ele encontrava uma explicação na bíblia para aquilo. Qualquer merda que acontecia, ele mandava a seguinte frase: "Isso é bíblico". Ele conseguiria encontrar uma explicação nas escrituras sagradas até mesmo para uma unha encravada.

Nunca entendi a razão de tanta paixão por um tema tão mórbido. Na boa? Chega! Vou tomar uma cerveja. Se o mundo realmente acabar, não quero morrer passando vontade...

Favores infames

Uma vez por ano, meu pai e outros velhos desocupados entravam em um ônibus e passavam um fim de semana inteiro enchendo a cara em um clube no litoral norte de São Paulo. Este passeio chamava-se "Arrastão".

Certa vez, querendo se gabar do filho e fazer um moral com os amigos, me pediu para fazer um desenho para estampar as camisetas do passeio daquele ano. Isso ocorreu já há algum tempo, mas até hoje não fiz desenho algum. Esta não foi a primeira vez que alguém próximo a mim pediu alguma coisa e, por pura preguiça, jamais fiz. Já me pediram desenhos, logotipos, quadros e outros favores que não tomariam mais que alguns minutos ou horas de meu tempo.

Anos atrás, trabalhei como designer em uma montadora de veículos. Havia ali um diretor fanfarrão, que gostava de inventar apelidos, fazer piadinhas em reuniões, tomar umas cervejinhas, falar palavrões... Enfim, era alguém que gostava de passar a imagem de ser um sujeito comum e acessível.

Um belo dia, este diretor entrou em minha sala bem cedo e me pediu um favor. Ele participava de um bloco carnavalesco, e queria que eu fizesse algumas ilustrações infames para estampar as camisetas deste bloco. Antes da hora do almoço, os desenhos estavam feitos. Ele agradeceu, e o assunto morreu ali.

Três ou quatro semanas atrás, meu pai lembrou-se do desenho que me pediu (e que jamais fiz) para o passeio dele. Dei uma risadinha amarelada e mudei de assunto. Desnecessário dizer que me senti um verme naquele momento. Fiquei absolutamente constrangido com a situação.

Vejamos... Não prestei um simples favor ao meu velho pai, o cara que me criou, me sustentou, que deixou muitas vezes de fazer as coisas que ele quis para satisfazer meus desejos e que se dedicou de corpo para que eu me tornasse alguém na vida (bem, o que vale é a intenção...), mas perdi alguns minutos de meu expediente para agraciar o diretor.

O tal diretor não "ordenou" que eu fizesse os desenhos. Simplesmente me pediu. Não me pressionou, não me ameaçou e não impôs sua superioridade hierárquica. Se eu não tivesse feito os desenhos, talvez ele nem tivesse percebido.

Creio que muitos de vocês que estão lendo este texto, indignados pelo ser asqueroso que sou por desprezar meu querido e velho pai, tenham passado alguma vez por situação parecida. Muitas vezes não damos o devido valor aos nossos entes queridos. No entanto, seja por medo ou simplesmente para fazer uma média, somos capazes de empregar um esforço incrível para as coisas mais banais.

Estava me esquecendo. Eis aqui as obras de arte para o tal bloco carvavalesco...


Yes, eu criei um blog!

Após uma péssima noite de sono, levantei-me, pronunciei o primeiro palavrão do dia (bati com o dedinho do pé esquerdo na quina da porta), escovei os dentes, troquei de roupa e me dirigi ao escritório.

A manhã estava absolutamente entediante, eis que tomei a maior decisão do dia (possivelmente da semana, já que meus negócios andam capengas). Estufei o peito, ergui minha cabeça e disse em alto e bom som: "HOJE CRIAREI UM BLOG!"

Bem, confesso ter enfeitado um pouco o momento. Não ergui a cabeça, não estufei o peito e não pronunciei uma única palavra. Aliás, exceto por dois telefonemas recebidos (um deles da minha mãe), passei a manhã completamente calado, mesmo porque meu sócio não apareceu por aqui, alegando estar com a pressão alta. Acho que estava mesmo é com caganeira...

A idéia de criar um blog é antiga. Sempre fui metido a escritor, cronista, chargista, filósofo e outras atividades sem qualquer valor. Poucas vezes mostrei algum texto ou desenho a alguém. Sempre serviram para a minha satisfação pessoal em meus momentos de ócio. Alguns de meus textos ou desenhos mais interessantes surgiram em cadernos e contracapas de livros durante algumas aulas chatas que tive o desprazer de freqüentar.

Aliás, foi em uma destas aulas chatas que descobri meu ofício. Estava eu, sonolento em uma aula de cálculo vetorial e geometria analítica (levei anos para decorar este nome) do primeiro ano do curso de engenharia da FEI, sem ter o que fazer e sem prestar a menor atenção na aula. Comecei a desenhar o professor que estava ali a minha frente disparando milhares de palavras incompreensíveis aos meus pobres ouvidos. Jamais quis ser engenheiro! Até hoje me pergunto por que afinal de contas prestei vestibular para engenharia.

Pois bem... Um colega ao lado viu o desenho, disse que eu desenhava bem e que eu deveria ser designer. Aquilo bateu em minha mente como uma luz divina. Resolvi seguir o conselho profético do meu caro amigo. Prestei vestibular no final do ano, passei, e acabei me formando designer. Tudo graças ao conselho do meu nobre camarada da faculdade de engenharia. Até hoje sinto vontade de matar esse desgraçado...

Enfim, retornemos ao assunto original da criação deste blog. Qualquer dia escrevo sobre como acabei me tornando designer (e me condenando a uma vida de dor e sofrimento). Como disse anteriormente, sempre tive o hábito de registrar alguns de meus pensamentos mais íntimos, insanos e imaturos, seja na forma de textos ou na forma de desenhos.

Nunca pensei em publicá-los. Para dizer a verdade, cheguei sim a publicar alguns desenhos e textos em fanzines (creio que somente alguns nerds mais velhos saibam o que é um fanzine. Para quem não sabe, eram umas revistas toscas, xerocadas uma a uma, abordando temas diversos), jornais de bairro, e talvez o ponto alto de minha carreira como chargista tenha sido em 1996, no segundo ano de faculdade, onde ilustrei porcamente o guia dos calouros da UNESP daquele ano.

Inicialmente guardava tudo em minhas gavetas. Porém, minha mãe cultivava a mania de "limpar" as minhas gavetas. Talvez ela estivesse procurando drogas, pornografia ou algum indício de envolvimento com grupos terroristas. Tudo que ela encontrava era uma desorganização total e absoluta, papéis e mais papéis, e o lixo que eu desenhava e escrevia. Lixo na visão dela. Não tiro sua razão, afinal, era mesmo um lixo! No entanto, era o "meu" lixo. Era particular, privativo, pessoal. No entanto, após as "limpezas" que minha mãe fazia, era justamente no lixo que esse material acabava parando.

Então entrei para a era da informática, e comecei a lotar meu computador com todos os meus textos, desenhos e demais porcarias. O computador tornou-se minha gaveta. Ali nunca corri o risco da minha mãe xeretar e "limpar", já que ela possui horror a tecnologia (e por isso nem chega perto de computadores). Infelizmente alguns vírus fizeram com que eu perdesse tudo. Se não era a minha mãe, eram os vírus. Malditos!

A idéia de criar um blog era antiga. Tão antiga quanto o conceito do blog. Lembro-me de quando conheci o termo blog. Blog, Blog, Blog... Achei interessante, mas ao mesmo tempo uma inutilidade. Os primeiros blogs que surgiram eram de meninas adolescentes escrevendo sobre suas vidinhas igualmente inúteis. Com o passar do tempo, os blogs foram se tornando mais sérios e passaram a atrair outro tipo de público. Muitos de meus amigos e amigas criaram blogs, e isso começou a me encorajar.

Eis que hoje pela manhã finalmente o fiz. Agora só me resta uma dúvida: "Afinal, para que mesmo eu quero um blog?"